Hoje eu irei descrever como foi o meu 2º dia de tratamento com minha psicóloga / coach especialista em comportamentos e a terapia que realizei no mesmo dia com a a psicóloga que acompanha todo meu processo de transição de gênero. Ah, você, não sabia? Sim, eu sou um homem transgênero. Só que esse tema : homens trans e o machismo, nós iremos abordar em outro momento.
Após a decisão de procurar um profissional especializado no tema e refletir muito a respeito das minhas atitudes diante do mundo, eu comecei a visualizar fatos invisíveis aos olhos e que de costume fazemos nas entrelinhas porque trazemos na bagagem desde pequeninos.
Fui indicado a leitura de alguns livros que compartilharei com vocês, como também filmes que desenvolvam a percepção a todo mal que o machismo acarreta em nossas vidas, nas relações interpessoais e no crescimento emocional . Embora, eu ainda não tenha conseguido ler e assistir todos, ao menos já estou ganhando mais conhecimento diante das inúmeras informações e visualizações . Um livro me chamou muita atenção, "o feminismo é para todos" de Bell Hooks. Você pode até pensar: só me faltava essa, homens feminista? Não! A ideia do livro é tocar sua existência, seja você homem, mulher, em qualquer idade. Acredito que de alguma forma acabamos compreendendo a necessidade de sermos pró-feministas, já que é importante a visão de igualdade.
Na obra, a autora apresenta uma visão diferenciada porém original sobre o feminismo, aponta a opressão imposta pelo machismo e nossos comportamentos abusivos, como também as vitórias do movimento atrelado a importância dessas conquistas na vida das mulheres e todos que a rodeiam.
Partindo deste ponto, após minhas terapias no dia anterior, eu fui levado a minha infância e adolescência. Eu relembrei que vivi praticamente toda uma vida em uma família muito tradicional, enraizada de preconceitos e machismos. Não poderia deixar de ficar desapontado em ter que qualificar meu pai, aquele que sempre foi o meu herói, um homem bom que cuidou da família e do trabalho, como um controlador, narcisista, abusivo e machista. Sim, eu preciso encarar esta realidade um pouco mais de perto. É claro que esse comportamento por 60 anos deixou reflexos numa senhora, minha mãe. Já que ele era tudo isso porque nunca percebi essas atitudes? Não, calma, eu enxergava elas sim, eu já o confrontei inúmeras vezes no passado quando ele gritava com minha mãe. Então , porque meu cérebro apagou essas lembranças? Acredito que o amor que eu sentia por ele e toda aquela admiração, o tornava um ser incrível. Ele era sim um pai indescritível , meu melhor amigo mas incrível mesmo era ela ... minha mãe!
Realmente, quando amamos muito alguém, nós acabamos encontrando desculpas para achar normal e justificar tais comportamentos através do tempo, aprendizado, cultura etc . O machismo também ludibria nossa percepção e acabamos sempre valorizando mais a figura masculina. Precisamos mesmo falar a respeito disto todos os dias ... continuando ...
Eu achava normal o jeito que ele dominava nossa família. Veja, eu não estou o classificando como um homem ruim, pelo contrário, ele era generoso, amigo, leal, muito atencioso com todos, principalmente com minha avó, hoje com 101 anos, nunca ninguém da família cuidou tanto dela a vida toda, como ele. Sim, ele se foi e elas, minha mãe e avó paterna, o aguardam até hoje em suas casas por tanto amor. Só que eu descobri que o amor também machuca. Ele causa dependência emocional e qualquer tipo de amor precisa ser livre e leve.
Embora, ele tenha sido um pai amigo e presente, com nossa família unida e casados por 60 anos, o controle por entender que o "homem" é aquele que deve fazer tudo e a "mulher" aquela que cuidará da casa e dos filhos, era a visão da essência mais machista e preconceituosa que eu não pretendia enxergar.
Comparando com algumas atitudes posicionadas em meus relacionamentos pessoais, claramente visualizei uma proximidade gigantesca com aquelas que convivi. E , por isso, eu busco evolução. Não compreendeu? Eu sim, eu sou o reflexo do meu pai com minhas namoradas e minha própria mãe. Lógico que num tempo diferente, uma geração mais moderna porém com as mesmas raízes do outro século.
Você gostaria de saber o que eu acho da minha mãe? Olha, ela é incrível! uma mulher que viveu para a família , trabalhava como professora em uma escola particular na parte da manhã e dos filhos nos demais horários. Vocês teriam ideia do que deve ter sido e ainda é, cuidar de um menino autista por 48 anos? Eu nunca havia parado para pensar nisso com reflexões e empatia. A heroína é ELA !
Uma mulher que precisou quebrar barreiras quando descobriu minha sexualidade e logo após, meu gênero. Ao menos ela não se escondia dentro de máscaras da aceitação presencial para destilar verdades opressoras pelas costas. Ela é autêntica. Cuida do meu irmão autista há 48 anos, de toda casa e alimentação, porque foi assim que ela aprendeu a viver e eu não a culpo por isso. Hoje, após 37 anos, eu sinto orgulho dela. Não importam agora os prejuízos emocionais derivados em 73 anos de uma esposa "submissa". Nós podemos citar o narcisismo, a dependência emocional, a dependência do controle financeiro ... tampouco culparei meu pai por esses prejuízos, mesmo tendo a clareza que ele foi o opressor e colaborou diante da sua conduta, para que ela manifestasse comportamentos desfavoráveis a felicidade dela como um todo se pensarmos numa visão de mundo maior, o que não era o caso deles. Afinal, eles entendiam que esse era o sentido da felicidade.
Eu apontarei e culparei o machismo e todo o mal dos comportamentos controladores e abusivos que as pessoas costumam banalizar e considerar pequeno e parabenizar diversas mulheres e homens que alcançam este entendimento, mesmo que tarde como no meu caso, e procuram orientação para transformar essa sociedade em pessoas mais sadias e comprometidas.
Quem é meu irmão? Atualmente ele tem 48 anos e nunca havia parado para analisar um fato interessante. Será que ele encontra-se na minha vida para eu perceber o modelo de homem que deveríamos ser? Como assim? Bom, ele é comunicativo, generoso, amigo, brincalhão, muito engraçado, animado, não guarda ódio e nem rancor, não ofende, não machuca , ama de uma forma diferente, aquela forma que considero ideal , sem muita entrega e bajulação, apenas muito amor e admiração. Ele é super comunicativo, altruísta, carinhoso, bondoso, leal e companheiro. Ele escuta mais que justifica, até porque ele não tem o que justificar de erros. Ele tem algumas dependências mas não se envergonha disso, ele adora ganhar presentes simples mas não se envaidece disso, ele ama as pessoas que entram na vida dele e nunca esquece delas, nem ao menos o nome ou a data de nascimento. Ele ama as mulheres, ele ama os homens, ele ama os animais, e não tem problema algum de achar que sua masculinidade será ferida , ao olhar para a estrelinha do céu e procurar nosso pai. Ele tem um coração liberto desses comportamentos opressores, vaidades e controles que matam a nossa boa vontade de sermos bons, mesmo que de forma leve, definitivamente, ele quem deveria ser o homem modelo da minha vida e meu herói.
Hoje, após 3 anos que papai faleceu, eu continuo a missão dele. Cuido das finanças, da família, visito minha avó mesmo ela não em reconhecendo as vezes. E quer saber? Não é o suficiente! Não adianta eu cuidar de tudo, fazer tudo que EU quero e desejo, eu preciso que minha mãe tenha voz ATIVA. Incentivar ela a sair com as amigas, ter o dinheiro dela em mãos, comprar presentes para quem quiser, fazer o que bem entender, sem a minha tal "permissão". De mim, eles precisam de mais amor e cuidado, conversa, diálogo, compreensão, calmaria, paciência. Eu sei, eu sei, a nossa vida cotidiana é muito agitada, difícil, o estresse comete maior parte da nossa semana mas isso não proíbe nossa participação nos afazeres domésticos. Pelo contrário, é prazeroso cuidar de tudo que amamos e sem dúvida, nossa casa, nosso lar, nossa família, tudo é amor. Diante disso, não vale a pena justificar nossas ações ou falhas em erros do passado, mudemos agora. Aprendamos a controlar nossas fraquezas, tristezas e frustrações. Controlemos nossa energia. Façamos atividades diferentes, ao ar livre, pratiquemos a leitura, filmes, caridade ... precisamos entender mais a respeito da empatia porque ela rege o amor. Eu achava que amor era suficiente para manter relações entre as pessoas. Não, o amor é empatia. Doar afeto, atenção, ouvir mais, falar menos, se expressar de forma inteligente , honesta e educada. Ser mais suave e parceiro. Ser mais amigo e não compartilhar ou participar de assuntos machistas por mais velado que ele seja, combater, sem medo, afinal masculinidade não é igual ao machismo.
Acredito que quanto mais empatia , mais o machismo será desconstruído dentro de nós.
As mulheres merecem nosso respeito pela grandiosidade da sua existência .
Ainda bem, eu estou tendo a oportunidade de compartilhar com você a MINHA desconstrução a cada dia de descoberta, reflexão e entendimento. Fácil? Ninguém disse que seria mas eu continuarei tentando mudar meus padrões comportamentais. Nunca é tarde para sermos melhores que ontem.
Vamos desconstruir?
Livros que me foram indicados para auxiliar na busca de um homem melhor:
Já li:
1- O feminismo é para todo mundo (Bell Hooks)
1- O feminismo é para todo mundo (Bell Hooks)
Eu ainda lerei:
2- Um amor Incômodo(Elena Ferrante)
3- O conto da Aia (1985 - Margareth Atwood)
4- Persepolis (Marjane Satapri - 2000)
5- Jane Eyre (1947 - de Charlotte Bronte)
6- Sob a Sombra de Saturno (James Hollis)
7- Alem do Heroi - Historias clássicas de homens em busca da alma (Allam B. Chinen)
8- A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana A.)
9- O diário de Anne Frank ( Anne Frank)
10- Memórias de uma moça bem compoartada (Simone de Beauvoir)
11- 12 Regras para a Vida (Jordan Peterson) (LEIA CRITICAMENTE)
12- A história da Virilidade (box com 3 volumes - vários autores)
13- João de Ferro (Robert Bly)
14- Na minha pele (Lazaro Ramos)
15- Os deuses e o homem / os deuses e a mulher (Jean Bolen)


