domingo, 5 de abril de 2020

6º dia da Desconstrução: o nosso lugar não é o do outro! falta maturidade!

Hoje não consegui terminar de ler o livro "um amor incômodo" mas recebi um presente especial de um grande amigo unido no nosso projeto: Um Homem de Coragem. Sabe qual ? O diário de Anne Frank. Eu não poderia deixar de agradecer a esse amigo, filho, parceiro. Gratidão por desconstruir , reconstruir, recriar e abraçar essa iniciativa para todos nós alcançarmos o desmonte da toxidade na sociedade. 
Nossa! eu fiquei muito emocionado. Pensar que esses amigos, jovens, atletas, que sempre se espelharam em mim para impulsionarem suas vidas. Hoje estariam formando uma rede comigo de desconstrução com muita informação e debate. A vida é mesmo surpreendente e peculiar. Ao olharmos com mais sentimento , a gente encontra mais afeto e aprendizado. Independente de gerações.

A reflexão de hoje estará baseada numa roda informal de amigos que aconteceu livremente e fez com que eu me questionasse a respeito de muitos assuntos que permeiam a figura masculina do macho tóxico e a visão da sociedade.
Em um papo despretensioso durante uma boa parte da tarde desta sábado, defrontamos com opiniões e argumentos, justificativas e qualificações de homens de gerações diferentes. Eu, com 37 anos. Cristiano, com 20 anos. Os outros dois companheiros do debate, não especificarei nomes mas possuem : 45 e 65 anos, assim respectivamente.
Na primeira parte da conversa, evidenciamos as relações e seus fracassos. Antes disso, eu preciso retornar em uma cena importante. Dentro do carro, eu fui confrontado pelo meu amigo a pensar no fato em que homens acabam suprindo suas necessidades com mulheres, tal que geralmente acabam ocupando sua parte emocional com relacionamentos sem uma pausa significativa de um ao outro. Com isso, ao terminar uma relação e estar frágil emocionalmente, acabamos iniciando uma outra, caso exista a oportunidade, e não paramos para compreender a gravidade desta operação para si e ao próximo que depositará esperança.
Essa reflexão é muito significativa e rica já que logo surgem os questionamentos: " por que não conseguimos ficar sozinhos por um longo tempo cuidando da gente e evoluindo como pessoa? " " por que não contemplamos nossos próximos passos com informação e análise ou até mesmo soluções para entendermos nossos fracassos ? "
Realmente eu nunca havia parado para alcançar essa informação. Precisamos mesmo cuidar mais da nossa parte emocional, física e espiritual. Buscar alinhamento com uma nova visão de mundo. Estarmos aptos a um novo eu, reconstruindo novas estruturas e revendo valores, principalmente.
Ao compreendermos essa etapa das nossas vidas, nós estaremos alterando nossas visões de mundo patriarcais. Aquelas regras que ditam aos homens sempre estarem acompanhados de mulheres ou várias delas, seja numa simples noitada ou num relacionamento. Regras essas que colocam a mulher como um objeto , no meu pensamento.

Retornando ao papo de amigos numa roda despretensiosa. Muitas perguntas foram feitas a respeito de relações passadas, machismo, controle, comportamento ...
O que vocês acham que aconteceu para causar tanta reflexão? Sim, a mulher classificada como aquela "maluca", "louca", "surtada", como também aquela que "deu em cima", "era casada", "a mais bonita da cidade" e muitas extensões destas. Você pode até questionar: cara, você não acha que está colocando a mulher como vítima para todos os términos de relações? Não, você não entendeu a reflexão. Eu não posso falar pela mulher. Nós precisamos nos colocarmos no NOSSO lugar. O debate não é o que aconteceu para a relação não dar certo ou qual a participação da mulher nesta situação. O questionamento é justamente a respeito do quanto nosso machismo qualifica a mulher de forma depreciativa e desqualificada. É desrespeitoso visualizar a nítida falta de igualdade.

Primeiramente , nos deparamos com uma fala muito machista e no mínimo muito abusiva em uma visita aleatória. " Nossa , essa sua amiga é boa mesmo, bem comida ". Na mesma hora confrontei: "olha o machismo". Eu deveria ter sido mais enfático e crítico: "olha o machismo, você acha legal falar algo assim da moça?". Eu fiquei oprimido e muito chateado por ter dito pouco, mesmo que repetidamente. Vamos refletir nisto? por que ficamos com medo de confrontar outro homem?

A conversa desenrolou pela tarde e alguns pontos foram abordados quando um dos homens resolveu  relatar as conquistas para ficar com suas ex esposas. Uma delas, usuária de maconha, mais nova e muito bonita, precisou largar o uso desta droga ilícita com a justificativa na marginalização imposta pela sociedade, já que de acordo com ele, ela seria classificada como drogada marginal. Será que o homem também seria taxado de marginal ? e se sim, o impacto da mulher não seria maior? Ele me disse ser a favor da liberação desta droga visto que ela causa menos colaterais quando comparadas aos cigarros e bebidas alcoólicas. Afirmou que de acordo com um psiquiatra, quando algo deste tipo é livre para consumo, a motivação através da adrenalina é reduzida , já que não existe o "perigo", assim ele acredita que as pessoas utilizariam de forma mais correta ou comum. Eu fiquei pensando nisso e prometi estudar a respeito. Depois, fiquei relacionando com minhas relações pessoais passadas e com as pessoas. Parecia estar sentado em uma banheira de gelo. Somos tão preconceituosos que discursamos a respeito da liberdade do outro , porém não sabemos lidar ou nos comportar para sustentar o discurso dela .
O mais interessante foi a oportunidade de questionar e ouvir relatos daqueles dois homens e fazer inúmeras perguntas. Parecia que queríamos tomar um antídoto contra a toxidade mas compreendemos que o tempo reconstrói apenas quem busca e quem quer. Nós queremos, e toda informação é conhecimento.

Embora, não queira fugir do tema principal, acho interessante a relação entre: como a mulher é vista na sociedade quanto usuária de droga em detrimento ao homem? quando cito drogas, eu falo de todas, lícitas e ilícitas. Como a sociedade olha para a mulher que sai a noite várias vezes com seus amigos para beber cervejas ? E porque temos tanto preconceito com essas preferencias ou gostos? Por que suportamos ficar ao lado de um um homem fumando  vários cigarros e marginalizamos a mulher fumante ou usuário de maconha? São debates importantes e reflexões muito profundas com estudos para alcançarmos entendimento das correlações entre valores, hábitos, preconceitos, sociedade e suas regras ...
Tudo isso leva-me ao discurso do meu pai: " mulher não deve sair sem o marido a noite ou ficar vulnerável pelos bares e restaurantes ".
Será que no meu inconsciente, diante de toda confusão de sentimentos, eu não acreditava nesta verdade mesmo sem falar exatamente assim? E você ?

Uma discurso me chamou muito atenção. Foi assim: " Nós estávamos conversando, ELA sempre procurava-me a noite, ELA era casa e eu também, ELA um dia me perguntou se poderíamos sair . Começamos a ter um caso. EU fui embora e me separei. Fui ficar com ela e vivemos juntos tantos anos mas quando ela começou a reclamar igual a minha ex quanto aos ciúmes, EU fui embora mais uma vez".
Percebeu algo nesta frase? Melhor um balde de água fervendo agora , não é mesmo?
Veja, se os homens são colocados e aprenderam com a imagem do "garanhão", "pegador, "todo poderoso", como A MULHER será sempre a culpada pelas iniciativas? Não estou dizendo que a mulher não posso ter iniciativas numa relação, realizar cantadas, seja lá o que for, ela deve e tem mesmo esse direito se quiser. A análise consiste na reflexão específica: a fala do homem. Para ele, a mulher mesmo sendo casada, teve a audácia de dar em cima dele. E ele? não fez nada? logo, no final da relação ao ser confrontado pelas atitudes talvez machistas, quem foi embora ? ELE.
Ficou evidente para mim que as mulheres sempre estarão no julgamento da ação do dito inapropriado. Neste caso, o homem trair ou se interessar não tem problema porque é normal. Já a mulher ...
E quanto a beleza? ela era a mais bonita da cidade, não somente ela. Todas as ex mulheres eram belas. Você também se encontra nessa colocação, né? Eu também.  Mais uma vez a colocação da mulher como um objeto de desejo, beleza e prazer. De fato, nós precisamos conversar muito a respeito disto porque os nossos valores estão distorcidos demais.

Falta maturidade emocional para lidarmos com o que nosso corpo sente fisicamente e a conexão com nossa mente e emoções, certo? Por que esta pergunta?
Por que num dos relatos quanto ao poder da mente para causar transformações individuais. Foi afirmado que de cada dez homens, apenas um procura uma terapia. Acabamos falando a respeito na reflexão de ontem, através do documentário : o silêncio dos homens. Lembra?
A sociedade massacra tanto uma justificativa mais vulnerável, que os problemas da mente são "bobeiras das novas gerações" . Assim,  os homens, na sua grande maioria, acabam não procurando ajuda profissional e todos os seres humanos precisam disto.
Eu compreendi que essa questão vai muito além do seu significado e conteúdo. Quantos de nós já não minimizamos a dor de uma mulher? quantos de nós já não banalizamos sentimentos ? quanto de nós não tivemos a sensibilidade e colocamos a mulher como dramática ou neurótica? eu mesmo já fiz isso várias vezes. Que patético! Um machismo tóxico e um abuso psicológico muito evasivo já que precisamos nos colocar no NOSSO lugar. Não podemos falar , pensar ou expressar o sentimento , seja para uma dor física, mental ou espiritual.
Falta mesmo mais empatia ...

Você já parou para analisar porque falamos demais? Eu estou tentando compreender a relação das vozes na sociedade, mas uma pauta é bem evidente para debate: o homem não sabe ainda se colocar no lugar dele. O que mais ouvimos são homens falando. Eu mesmo falo pelos cotovelos. Muitas vezes deixo informações importantes passarem desapercebidas em conversas . Para mim, isso significa que elas nos escutam mais, agem com mais generosidade, procuram nos entender mais e agregar valores. O que a gente faz com ou por elas? Exatamente isso: pensamos tanto em nós mesmos e nas nossas dores e pressões em ser um homem que esquecemos dos sentimentos e necessidades delas. Esquecemos de ouvi-las, entendermos as dores, medos, anseios, vontades, ambições ... apenas presenteamos, certo? Isso se chama solidão. Não para nós homens com essas atitudes e sim, para elas. Machismo é realmente a definição do egoísmo. Um paralelo perfeito da falta de empatia e a super valorização do eu no mundo. O homem não é o centro do universo como fomos ensinados a acreditar. A palavra homem como referida a ser humano, não faz mais nenhum sentido para mim . Afinal, sem querer ofender qualquer religião ou crença popular, a figura de DEUS, não poderia ser uma mulher como no livro A CABANA? Acho que como neste livro, o homem, pai da menininha, que precisa retornar ao local do acontecimento no qual a encontrou morta, tem a seguinte percepção: ela (DEUS) me ama, me escuta, me surpreende com generosidade e compaixão. Ora ... talvez a visão de sociedade seria muito diferente a medida que fossemos crescendo com outros padrões . Não acham? Então, imagina DEUS, com esteriótipo FEMININO e de cor NEGRO. Visualizou? se você já leu este livro, sabe que DEUS nele é exatamente assim. Poderia ser essa simples alteração mudar o racismo, por exemplo?

Um assunto muito assustador que vem me perturbando bastante, algo que desconhecia em nível de gravidade e venho lendo bastante é: o feminicídeo.
Durante o bate papo na roda de amigos homens, não tocamos muito neste assunto , mas ele surgiu quando refletimos na seguinte frase: muitos homens que mataram mulheres, não necessariamente haviam matado antes. O que isso significa para você ? Não, eu não estou te chamando de assassino. Estou tentando fazer uma ligação a falta de entendimento das emoções e toxidade com atitudes passionais.

Texto retirado da página Saúde Pública da UFSC:
Quando se pensa em assassinato de mulheres, percebe-se que ele não se dá da mesma forma e pelos mesmos motivos como acontece nos assassinatos de homens”, diz o professor Rodrigo Otávio Moretti-Pires, do Departamento de Saúde Pública (SPB). Em particular, as mulheres morrem principalmente por violência de gênero. “São os homens que assassinam, são as relações doentias que matam, geralmente relações de poder e de posse pelo corpo da mulher, que as expõem a mais riscos do que os homens”, completa. De acordo com Moretti-Pires, discutir essa questão no país é fundamental diante dos índices de violência contra a mulher registrados no Brasil, que é caracterizado pelo pesquisador como “um país extremamente machista e patriarcal”. Segundo ele, “temos uma tradição religiosa que deu base para que o país fosse extremamente machista e a mulher sujeita a isso. O assassinato vinculado ao relacionamento é algo muito mais forte contra a mulher”.
Por que as mulheres morrem?

São tantas reflexões para serem feitas , não é mesmo? Parece que nossa cabeça da um laço!
Imagina você ouvir de uma amiga o seguinte relato : " quando eu descobri que meu marido me traía com uma mulher 25 anos mais nova que eu e  saber que vivemos muitas coisas juntos, construindo tudo que tínhamos a base dos nossos esforços, eu fiquei arrasada e foi muito difícil ser trocada e desvalorizada. Eu ajudei a este homem ser o que ele é  profissionalmente ".
E, logo: " mas eu procurei ajuda, terapia, consultas semanais para desprender e seguir em frente ".
Em evidência, diante de tudo exposto hoje: a dor da mulher diante da ação masculina sem maturidade e a maturidade feminina em busca da evolução.
Tenho certeza que nós temos muito mesmo a aprendermos com as mulheres.

E não esqueça : se falar ou agir com machismo, escute! se falar algo racista, escute! se falar com preconceito, escute ! NÃO JUSTIFIQUE ! Precisamos nos colocar sempre no nosso lugar. A voz neste caso NÃO é nossa.

Até amanhã ... um dia de cada vez ...


Homens, vamos lutar contra o Machismo , campanha da Austrália :

O fato principal

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