terça-feira, 7 de abril de 2020

7º dia da Desconstrução: Carregando uma Máscara Social.




"Ele fala como a masculinidade é distorcida e tem a capacidade de transformar homens em pessoas que escondem seus sentimentos"


Essa quarentena, devido a pandemia com Covid19, de certa forma vem enriquecendo novos hábitos e aumentando o conhecimento através da leitura, filmes, documentários e seriados.

A reflexão de hoje será do documentário indicado pela minha psicóloga/coach em comportamentos "The Mask You Live In". Em paralelo as atividades diárias e terapia, estou terminando a leitura do Livro "Um Amor Incômodo" de Elena Ferrante, como também irei iniciar "O Diário de Anne Frank".

O documentário tem o objetivo de mostrar o universo da masculinidade no contexto dos EUA mas acho que serve para toda cultura do mundo, já que afeta completamente toda sociedade e as relações entre as pessoas.

Ficou muito claro que expressar os sentimentos para homem é visto como uma fraqueza. Não deveria ser uma grandeza? Um ato de coragem? Todos ser humano tem suas necessidades, questões mal resolvidades e precisam de amor, carinho, afeto e atenção. Alguém para dizer : " vai ficar tudo bem ". Será que vivenciamos isso desde pequenos? 

É muito fácil o julgamento e a exclusão mas olhar com empatia o quanto a criação afeta diretamente faz toda diferença. O quanto somos ensinados ou crescemos assistindo nossos pais pautarem seus dias na força, poder, superioridade, agressividade, como também em nunca chorarem, jamais serem fracos, tampouco demonstrarem suas vulnerabiloidades. De certa forma, a gente carrega conosco essa capa protetora porque os homens não podem ter empatia.

Você já parou para refletir que ao vivenciar tudo isso na criação, de alguma forma , ao perceber ações machistas no cotidiano, você debruça num abismo de emoções? Sabe por quê? A questão de gênero constituída socialmente propõe que ser homem é apenas uma linha reta já definida, como uma cor azul, brinquedos mais agressivos, carros, aviões, barcos, bonecos ...

No meu caso, como um homem trans, eu vivenciei tudo isso na minha família com meus pais, tios e avós. Eu  participei de primos mais afeminados serem excluídos e com suas masculinidades colocadas a prova. Não poderiam ser a "mulherzinha", o "gay", o "bichinha"...
Eu acredito que eles só queriam um abraço e uma palavra de amor.

Quando recordo da minha infância, os constantes abusos sexuais de um primo próximo apagados pela minha mente, a falta de abraço e conversa, não lembrar das palavras de amor dos meus pais, as inúmeras instabilidades agressivas do meu irmão autista diante da frustração de não entender e saber lidar com seus sentimentos, a diária de cintada ou paulada, ou até mesmo a cabeçã sendo batida na parede por ser muito hiperativo e arteiro, eu visualizo claramente o quanto a criação com tanto amor é também muito machista e opressora. Como meus pais não perceberam que aquele primo dez anos mais velho sempre estaria na nossa casa, no mesmo horário, para brincar com uma criança de seis anos? faltou mais sensibilidade no olhar ou seria um outro assunto a se questionar? 
Eu nunca vi meu pai chorar na minha frente, caso tenha visto, isto aconteceu ele já bem velhinho. A minha mãe era mais chorona e demonstrava mais os sentimentos diante de tanta pressão da época: cuidar de um menino autista no qual a informação era menor, como também cuidar de toda casa, do trabalho como professora numa escola particular e, eu. Ela também precisava cuidar das coisas do meu pai que trabalhava fora o dia inteiro. Não devia ser fácil.

Acredito que por muito tempo eu me sentia culpado. Até porque eu era muito acusado pelos problemas. Acho que o caminho mais fácil era realmente descontar em mim de alguma forma, até mesmo sem querer fazer isso.  Cresci sabendo o quanto eu era um menino mas com tudo sendo imposto como se fosse algo proibido ou errado. Então, eu era obrigado a usar roupas femininas que eu odiava. Eu relembro do meu pai dizendo : " deixa usar o que quiser " mas hoje entendo que isso era somente na minha frente. E tudo ficou bem claro no futuro. Meu pai tinha necessidade de ser a figura boa. Não que ele não fosse. Foi um pai presente, amigo e maravilhoso conosco mas e a minha mãe? Bom, ela não tinha máscara social, bem como não escondia seus reais sentimentos.

Sabe aquele desconforto mais visceral? Uma menina usava rosa, meia calça, cabelos presos e maquiagem. E menino? poderia ficar mais largado e correr pela rua. Justamente era tudo isso que eu queria porque sempre foi tudo na minha mente bem claro: eu sou menino. Eu admirava muito a figura masculina do meu pai. A maioria dos meus amigos eram meninos. Eu costumava me apaixonar pelas minhas melhores amigas mas eu não entendia o que significava. Realmente , eu era diferente. Um menino que não falava, nao tinha com quem conversar...silenciado num estereótipo errado e tentando encontrar uma direção social sem nenhum tipo de bate papo.

Infelizmente, essa é a verdade: os homens vivem em prisões que nem eles mesmo conseguem sustentar. Isso significa algo muito dif´icil, a solidão.
Sempre tive muitas pessoas ao meu redor mas nunca entendi porque não conseguia manter as amizades como as outras pessoas. Eu até tinha o interesse mas ficava preso na questão fraqueza ou orgulho. Por que eu nao ligava? enviava uma mensagem? contatos diários?
Eu acho que nunca consegui me achar homem o suficiente diante do meu estereótipo e tudo aquilo que a sociedade colocava na minha frente era algo confuso demais. 
Tudo que eu mais queria era ter tido muita conversa com meus pais, ter escutado mais a palavra amor, não ter sido agredido na descoberta da minha sexualidade, ter encontrado mais agradecimentos que negaçoes. Por outro lado, talvez eu não estaria aqui hoje escrevendo e tendo a oportunidade de desconstruir as raízes.

Sabe o que eu percebi? O machismo é um quadrado de força , potência e virilidade.
O que não vem na caixa? tudo que é feminino. Seria um medo? Talvez por isso o fechamento emocional seria tão conflitante: seja na familia ou no trabalho. Claramente uma masculinidade tóxica tão dita sempre. É isso! O homem acha que pode controlar tudo. Não, ele não pode!

Quando eu percebi que reconhecer esses contextos dos privilégios do masculino seria o primeiro passo da mudança, eu compreendi algo que sempre escutava e falava: homens são simples. Mulheres complicadas.
Você  também já disse isso várias vezes, né? Sinceramente?
Complicados somos nós que não conseguimos deixar nossa empatia tomar conta. A gente esconde tudo que é frágil. Enterramos aquilo que a sociedade dita como frágil e adotamos comportamentos distorcidos para uma vida saudável com construções sólidas e duradouras.

Existe uma parte no documentário que balançou demais minhas estruturas profissionais.
Sabe quando você enxerga o seu papel social? Então, eu sou um treinador de vôlei e professor de educação física. Realizo um projeto social para atletas há mais de cinco anos. Qual papel masculino eu quis passar aos meus atletas? Quais valores ? Será que eu ensinei a eles a terem mais empatia pelas pessoas e seus sentimentos? Caso não, eu estou aqui hoje revendo minhas iniciativas e particularidades. No documentário, fica tão evidente o papel de um professor, mentor, um treinador na vida desses jovens. Nós podemos construir como também destruir.
Eu quero estar sempre no grupo da construção. Eu lembro bem dos meus treinadores. A maioria era machista , humilhava, ofendia ... Quantas vezes não posso ter cometido atitudes replicadas considerando um bem para um fim? Não! eu não quero construir somente jogadores. Quero construir homens com valores e hábitos saudáveis e empáticos. Homens que valorizem as mulheres. Homens que não usam da violência para resolução de conflitos. Homens que conversem e não tenham medo de expor sentimentos e que se abracem para ficar tudo bem.
Sabe quando você olha para trás e um mundo desaba? tudo aquilo que você considerava correto, muitas coisas só existiam na própria cabeça. A gente reflete atitudes e hábitos sem perceber o erro. 

Vemocê também acredita que não fomos ensinados a construir relacionamentos afetivos de forma saudável? O que mais assistimos eram homens dominando suas parceiras de alguma forma. Também crescemos visualizando tudo isso nas mídias sociais. Quais são os super heróis preferidos dos homens? vamos pensar nos atributos físicos deles ou seus poderes?
É algo surpreendente porque não existe igualdade em nenhuma iniciativa. O masculino é amplo , rico e maravilhoso igual ao feminino mas não é explorado. O que existe é a toxidade e isso é alarmante.
Mais alarmante ainda é entender que os homens se matam mais, brigam mais, se suicidam mais ... como também, assistir no documentário que numa pesquisa em faculdades, quase 35% dos homens estuprariam uma mulher se não fossem pegos. Um fetiche que evidencia o poder e a força. A tal DOMINAÇÃO, como um  animal irracional. o comparativo também fica crítico para homens  de com pensamentos  em dominarem outro homem na cama sexualmente por prazer mas não se considerarem gay. Tudo girando em torno da dominação exagerada e daquela insegurança emocional em se sentir HOMEM, vulgo muito macho.
Primordial refletirmos muito nesses assuntos e alcançarmos o quanto "babaca" e "nojento" tudo isso não é. Afinal, o primeiro além de ser crime é algo imperdoável . O corpo da mulher é único e ela não é um objeto, além de fazer o que ela quiser. No segundo, no mínimo você é muito preconceituoso e inseguro.

Como o vídeo enfatiza , se sentir homem é você ter atitudes boas, lutar pelos menos favorecidos, pela igualdade, justiça, somar com as mulheres, ser um pai que ensina bons valores e oferece amor, carinho e atenção. Acho que tudo se resumirá a você ter mais generosidade, empatia e liberdade para expressar seus medos e conversar a respeito deles.

Diante disso, você já foi ridicularizado quando tentou expor seus sentimentos? e porque desistiu?
Hoje, eu estou encontrando apoio em pessoas que nunca imaginei . É um alívio saber que existem aqueles acreditando em nós, no propósito, na recriação e na imensa vontade de melhorar o que consideramos frio e pequeno diante de uma vida. Entender que toda vida é única e vale a pena. Compreender que todos somos iguais e merecemos respeito, porém que como homens temos a obrigação de batalhar pela igualdade e fraternidade. Assumir a responsabilidade e sermos pais mais amorosos e empáticos. Deixar a empatia transbordar ...

Precisamos aceitar a transformação porque ela acontece. Aceite você também e de continuidade. Permita ser acolhido porque quem tem bondade no coração conseguirá abri-lo, julgará menos e arrancará essa máscara de macho tóxico!
A gente quer falar e te ouvir também. Venha para nosso grupo.

Agradecer a minha psicóloga e coach Alessandra Calbucci pelo documentário e tudo que vem trabalhando em mim. Gratidão!

⏳⏳

Deixarei aqui o vídeo da próxima reflexão. Eu ainda não vi mas assistirei hoje. Ele foi encaminhado ao nosso grupo ( Um Homem de Coragem ) por Patrick Souza. 
É forte e impactante.







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